Sábado de manhã
2007, manhã de sábado, reunião de pais e professores para discutir o boletim. Minha mãe não sabia muito como fazer aquilo, afinal, não era algo que frequentávamos. O habitual era mostrar a folha-de-papel-cartão-reciclado, ganhar um parabéns e, a cada nota 10, R$10 entravam. Recompensa.
Daquela vez foi diferente, mesmo não sendo. Seguia com minha pequena fortuna feita em casa, mas fomos à escola em busca dos professores. Talvez minha mãe quisesse conhecê-los, talvez alguma outra mãe tivesse questionado como a minha ainda não os conhecia.
Rodamos o colégio. Mostrei a minha sala, o parquinho, a cantina e alguns colegas de turma que pareciam menos contentes de estarem por lá. Apresentei pessoas e lugares, percebendo os próprios segredos de vida secreta no auge dos meus nove anos.
Boletim em mãos, filha-acompanhante e mãe-acompanhante circulavam nos corredores em busca de algo que nenhuma saberia dizer ao certo. Queriam conversas, reafirmações, garantias, reconhecimento.?.
Os desejos eram dúbios, mas compatíveis com silêncio individual. Na prática, andávamos à procura dos professores. Esses, sentados nas cadeiras típicas dos alunos, evitaram o constrangimento dos desavisados e deixaram crachás de mesa dizendo coisas como Matemática ou Ciências.
Chegamos à legenda Geografia, onde a Thaís tinha uma cadeira vaga diante de si. A mãe-acompanhante se sentou. Despreocupada, já que a matéria havia me garantido R$10, a eu-acompanhante ficou ao seu lado percebendo a cena, intrigada.
Curioso ver um corpo como o da minha mãe sentado na mesma cadeira em que eu passava a maior parte dos meus dias — ainda mais estando diante dos mesmos professores que eu assistia e assentia de segunda a sexta-feira.?. Olhava de pé, ficando à altura daquelas duas pessoas tão altas, tão adultas, tão distantes. Por que ela cabia naquele assento?
Perdida na minha cabeça, fui acometida de uma descoberta. “… ah, e não sei se você e seu marido já perceberam, mas a luiza confunde ‘V’ e ‘F’”.
A Thaís da Geografia sabia de algo sobre mim que nunca tive a oportunidade de saber. Não pude acobertar. Aquele segredo não era meu, já era do mundo.
“não tem com o que se preocupar, só queria saber se vocês já tinham percebido. É bem comum, não tem muito o que fazer".
O interesse se sobrepôs à vergonha. Essa foi a primeira vez que descobri que existe um lugar sem contornos, sem tamanho definido ou sequer estimado — mas que divide a vida comigo. Um casamento às cegas que ecoa ainda hoje, dezoito anos depois, uma curiosidade ressonante.
Lembro pouco da infância antes de ler e escrever. Desde que me conheço por gente, carrego ideias a serem produzidas no mundo por uma lapiseira (jamais um lápis); ou tenho palavras emergindo no meu íntimo, a fim de transformarem imagem em sentido num borbulho similar a uma sopa de letrinhas.
Mesmo como uma pessoa que escrevelêepensaebrincadepensar desde pequena, carrego comigo alguns descuidos tão intrinsecamente individuais como a própria alfabetização. Dentre tantos, um que ainda permanece é a troca entre “V” e “F”.
Quando o meu corpo precisa correr para alcançar o pensamento, eu vejo esse vício. Ao abrir o meu diário (atualmente, um humilde e inofensivo caderno preto da tilibra), vou confundir.
Hoje em dia, erro para mim. Um pouco de neologismos, outro tanto de erros.
Poderia ignorar o descuido, afinal, o fluxo de consciência fala mais alto que a ortografia (o que é a língua portuguesa da vez, afinal?) — mas curioso, não? Confundir verdadeiro e falso.

