Rumi
Tenho pensado cada vez mais no curso de meditação que fiz em 2023. Algumas coisas assentaram só agora, vivências depois.
Para ser honesta, vou e volto com a prática, mas tem um poema do Rumi que me leva sempre ao mesmo caminho, ainda que fazendo companhia nos mais diferentes momentos. O texto me provoca a respirar um pouco, abrir espaço — inclusive para perceber novos incômodos e sentidos da própria escrita. Aqui vai:
The Guest House
This being human is a guest house. Every morning a new arrival.
A joy, a depression, a meanness, some momentary awareness comes as an unexpected visitor.
Welcome and entertain them all!
Even if they are a crowd of sorrows who violently sweep your house empty of its furniture, still, treat each guest honorably. He may be clearing you out for some new delight.
The dark thought, the shame, the malice, meet them at the door laughing and invite them in.
Be grateful for whatever comes, because each has been sent as a guide from beyond.
No começo, me incomodava o falso comando de precisar sempre estar positiva, elevando o otimismo à toxicidade. Sentia que a última passagem referenciava o divino e “receber” sentimentos desconfortáveis com alegria e hospitalidade flertava com o insano.
Apesar disso, quando menos esperava, lá me via de volta ao Rumi: garimpando, percebendo novos olhares sobre o texto e, mesmo com esse ranço, ainda ganhava alguns segundos ao ler o mesmo poema.
Hoje, me convoca o "being human" do primeiro verso. É, como se estivéssemos aprendendo a sermos humanos. Sugere uma forma temporária, com senso de trajetória e espaço para tentativa-erro. É reconfortante pensar na vida como uma experiência.
Quanto aos visitantes, entendi que estamos falando das emoções, não de acontecimentos. Você precisa reconhecer a provocação do corpo para entendê-la. Assim, a estadia não se alonga desnecessariamente.
Não são raras as vezes quando um sentimento desconfortável senta no sofá e o desespero da imprevisibilidade toma conta. Diante disso, Rumi convida a recebê-lo e honrá-lo, porque o resultado é tão inesperado quanto a visita. Ela pode desorganizar as estruturas que até então você considerava sólidas; pode esvaziar seu peito, seu desejo, suas crenças; mas isso tudo faz parte do processo de ser-estar humano.
Parto da esperança de criar bases ainda mais fortes, alegrias mais palpáveis, amores mais vívidos e presença para experimentar. Esse “clearing you out for some new delight” vem da quebra do ideal. O suficientemente bom muda durante a trajetória e tem vezes que só pausando, aprendendo e recomeçando é que podemos voltar a ver graça no ordinário.
Nisso, não é da ordem do divino — talvez até seja, cabe a cada um e sua respectiva fé. A meu ver de hoje, o “além” diz respeito à consciência. As respostas, ou melhor, as próximas perguntas estão em algum lugar interno. Elas mandam pistas por sintomas, atos falhos, sonhos, risadas, lembranças, como forma de nos guiar também.
O que ele propõe, ao fim, é presença e curiosidade para receber quem bate na porta.

