Mercado
“Que inferno! No Rio não chove assim. Isso que dá o Fernando querer morar em cidade de cimento e concreto, quem fica se espremendo em um guarda-chuva para ir no mercado sou eu”. O peso das sacolas criava novas linhas em sua velha mão. A ponta dos dedos amarelada era o único ponto de cor naquele fim de tarde. Até o sol decidiu abandonar o dia antes da hora, deixando o céu um infinito cinza sem astros.
O vento frio guiava o trajeto. Caminhava com dificuldade, dependendo dos decadentes postes para conseguir ver o próximo passo. “Não vai dar tempo de preparar o assado do Nandinho antes dele chegar do futebol”. O barulho do couro roçando seus pés molhados não a paravam, andava determinada, confiante, só. Sentia um regozijo vindo de algum lugar que não lhe convinha a análise.
Ao chegar na esquina, para. Entre ela e o seu destino, um rio formado pela chuva equalqueroutracoisa que São Paulo tinha a oferecer aos seus moradores. Parada, as sacolas pesavam mais. Atravessa sentindo a água nas canelas porque quer chegar a tempo de preparar o lanche, porque precisa liberar a empregada, tem que colocar o frango no forno, preparar o whisky do Fernando. Para largar as benditas compras e secar seus pés.
A luz no fim da rua se aproxima. Diante da imponente fachada de ferro com a placa “Edifício Marinoni”, aguarda alguns segundos sem assistência. “Preciso falar com o Fernando sobre esse novo porteiro. Vive no mundo da lua o rapaz!”.
Tentando não perder o equilíbrio, vai em busca suas chaves que vêm acompanhadas de um cartãozinho desconhecido. Sua visão não ajuda, mas lê “Fernando” e um telefone no chaveiro. Deviam ter trocado. As compras já pesam uma tonelada. Tenta colocar a chave na fechadura mas não encaixa. Tenta mais algumas vezes com a mão trêmula. Seu coração acelera, a falta de ar lhe acomete e o desespero a põe aos gritos. Balança as grades geladas equilibrando tudo que esperava ainda fazer com a certeza de que não conseguiria. Vai em direção ao interfone, mas não tem nada lá. No lugar, uma tela que parece um espelho falando “acesso negado”. Começa a bater no aparelho, seu guarda-chuva já foi levado com o vento, até que ouve “Mãe”. Vê Fernando. Não entende porque seu marido a chama assim, mas não consegue mais falar. Olha à grade de ferro e não entende como foi parar ali. Coisas como “você não pode sair sozinha” “a gente não mora mais aí” “Papai se foi” se sobrepõe enquanto ela é posta num carro com muitas luzes por dentro. Molhada, se encolhe agarrada às sacolas do mercado, decepcionada porque não vai dar tempo de preparar o lanche do seu filho antes dele voltar do futebol.
Atividade 3 - Escreva alguns parágrafos em que necessariamente apareçam os seguintes elementos: um carro, a lua, um chaveiro, a entrada de um prédio. Escreva um máximo de 1.800 caracteres com espaços. Não se preocupe em fazer um fechamento para o texto. Imagine esses parágrafos como parte de algo maior.
Usei a atividade como sugestão. Depois eu mudo para caber nos critérios.

