Cheguei
Terça-feira, 05:37, voz de sono e um ruído constante de quem grava enquanto dirige
Nesse semestre em Teoria Literária II, a gente falou muito sobre a relação com o tempo, tanto a partir do próprio narrador (barulho da seta do carro) — se ele apressaria os assuntos, ou se trabalharia com muitas descrições, alongamento de palavras, talvez com o subjetivo se sobrepondo ao mundo dos fatos, etc —, mas também sobre a ideia de tempo dilatado como fato estruturante e … até norte criativo da própria produção, o que sempre nos leva à Clarice, essa pessoa que sempre foi de encontro com a ideia progressista dos fatos. Ela narra sem avançar e, negando a divisão da história em passado-presente-futuro, também rompe com a narrativa de começo-meio-fim, já que toma pra si a missão ingrata de capturar o “agora”, de se atentar à própria caminhada, fora do “antes” e do “depois”. Enfim, o breve é minuciosamente narrado como forma de suspender o tempo e eu ando percebendo um pouco disso nas coisas que têm me feito bem. … . Tem me feito muito bem fazer cerâmica. Eu sinto uma felicidade muito, muito grande em poder cozinhar de novo. São todos atos manuais que levam tempo e têm o tempo específico de cada coisa, não tem como apressar —, e ao mesmo tempo, parece que ele passa diferente. Talvez essas sensação de ter um produto final que eu posso olhar, que eu consigo sentir com todos os meus sentidos, me permite tangibilizar um pouco mais esse tempo, do que fazer com esse tempo, ou o que significam os segundos no relógio. Enfim… São momentos que eu não me sinto atrasa— Ah! A análise! É outro lugar que parece que o tempo passa devagar. Ele vai vagueando mesmo. Tô dizendo “devagar” porque acho que sou uma pessoa muito acelerada, mas talvez, no fim, o tempo só passe da forma como ele deveria (barulho da seta do carro), completamente dissociado da visão teleológica que a gente definiu como certa e esqueceu desse comum acordo. Mas em fim (ato falho da escrita) enfim, dito isso, estou acordada às 05:36 da manhã, indo pro campeche ver o nascer do sol. Também, talvez, nessa proposta de ver, viver, sentir o tempo (ruído intraduzível) que a passagem dele se dê de uma forma natural.
Terça-feira, 05:59, carro desligado, esperando um pouco mais de luz para ir à areia
Intraduzível.
Terça-feira, 06:21, no trapiche, voz lenta
Esperei até agora, consegui sair do carro, vim pro trapiche e… a previsão do tempo estava certa (risada com suspiro), tá nublado. Nublado não, tem um acúmulo de nuvens aqui… embaixo do céu (som de um passarinho) (som do mar)… Não acho que “frustração” caiba aqui, só… surpresa, porque eu consigo ver o rosa em algumas nuvens que ainda têm estrelas no fundo. Atrás de mim, tá tudo muito escuro, ainda é noite, mas à minha esquerda dá de ver um céu azul, nuvens rosas, estrelas e um aglomerado de nuvens bem perto do mar, mas de resto…… de resto, eu precisava ter vindo.
Fiquei alguns minutos naquela posição, de costas à madrugada, de frente ao dia. Minha térmica com chá de gengibre no parapeito e meus cotovelos suportando o peso do meu rosto (minha cabeça tem sido pesada demais, talvez?).
Sentia frio e um pouco de medo de gripar/piorar da gripe que nunca se foi. Pensei em sair, mas conflitei não ter ido ao fim do caminho, já que me dei por satisfeita antes de pisar na areia. Pensei na ironia de “morrer antes de chegar na praia”. Parecia que aquela noção de avanço-dinamismo-evolução me enxotavam daquela passividade. Não deu o nascer do sol rosa, vai… se mexe.
Nesse processo, alguns grupos de pessoas passaram por mim. Acompanhava os passantes pelo ouvido. Uma adolescente com sotaque gaúcho não escondeu a alegria. “Meu deus, olha esse céu rosa!!! que vontade de sair correndo”. Com um sorriso, percebi melhor os pontos de cor como se ela falasse comigo. Segundos depois, uma mulher passa carregando taças que brindavam o começo do dia, enquanto ela reclamava da “merda das nuvens".
Fiquei alguns segundos no conflito, até que caminhei em direção ao som das ondas, contrariando o frio que sentia. No primeiro respiro, me veio “antes de sair, tenha certeza que você chegou". Cheguei.

