Carteira Vermelha
Domingo, passadas das 15h, o nãotãojovemcasal subia a Haddock Lobo depois de uma experiência no d.o.m.
A copa das árvores projetava sua sombra no chão fazendo um convite, como quem estende um tapete à travessia real. Era o fim de uma escapadela a São Paulo e eles desfilavam como nobres, celebrando os últimos momentos antes de pegarem o voo de volta à realidade.
O toque das mãos não era suficiente. Andavam de braços dados. Talvez pelo efeito da garrafa vinho tomada durante o almoço, estavam à vontade, felizes, tal como dois enamorados.
Já não existiam os anos de casamentos. Os filhos, nunca nasceram. Naquele instante, eram dois amantes. As rugas que se formavam com os tantos sorrisos que dividiam dava suspeita da passagem dos anos. O amor cega e eles não viam o tempo. A rua fez questão de se mostrar apenas ao casal. Mereciam viver aquilo sozinhos.
Naquele microcosmos só existiam eles, mas o mundo não é tão pequeno assim.
O barulho do escapamento rompeu com a troca de olhares. O falso Jardim de Éden em meio ao concreto paulista ruiu com tamanha velocidade que nenhum deles entendeu o que acontecia, até que os ruídos abafados tomaram sentido com a frase “Passa tudo".
Seus corpos, antes entrelaçados, agora eram cortados pela moto. Já não existia unidade física, espiritual e emocional. “Como é que ele chegou até aqui?” Se perguntava a mulher diante de um homem com capacete.
“Passa tudo”, repetiu o mascarado com a calma de quem tinha pressa.
O marido, lívido, buscava nos bolsos o tudo que lhe era demandado. A esposa o encara como se flagrasse uma traição. “Não, mas, para tudo. Fernando, que isso? Para!". E por alguns segundos, todos pararam. Ela, então, voltou-se ao terceiro elemento, incrédula:
“E você!”, falou encarando o próprio reflexo no capacete. “Isso são horas para um assalto?! Não são nem quatro da tarde. Que isso, gente?!” Arrazoada que é, mostrou o horário no seu relógio de ouro para provar o seu ponto. “Antes das quatro da tarde não se assalta!”
— Agora passa o relógio
— O quê?! Esse relógio?? Não entrego, eu adoro ele. E escuta aqui, nós somos turistas, viu? t-u-r-i-s-t-a-s! A gente vem à sua cidade, movimenta a economia e você nos assalta? Só o que faltava. Estamos prestigiando a sua cidade e você aparece a essa altura do campeonato, só o que faltava mesmo… Fernando, vai ficar parado ai?
O marido não só estava parado, como já estendia celular, carteira 1 e carteira 2.
O assaltante sacou uma arma, apontou à cabeça da mulher e falou voltando-se à Fernando, “eu vou matar ela". Mantendo sua semi apoplexia, o marido seguia segurando a respiração e os bens, ao passo que a esposa baixa a guarda:
— Agora espera, vamos conversar. Não precisa ser assim, viu? Vou pegar minha carteira. Mas só tem documento nela…
De fato pegou, para surpresa de todos. Mas a entregou sem soltar de suas mãos. Como numa valsa, assaltante e assaltada puxavam a carteira vermelho sangue. Ela havia escolhido essa cor porque dizem que traz boa sorte.
"Solta”, falou o mascarado que apontava a arma para sua testa. Contrariada, ela entregou a carteira. “E agora passa o relógio” “Não. Esse relógio, não”.
— (…), do marido
— (…), da esposa
— (…), do assaltante
“A sua esposa é louca”, falou depois de alguns segundo encarando os dois.
Recolhidos celular, carteira 1 e carteira 2 de Fernando, foi embora. Ao que a esposa rapidamente pega o seu celular e o ergue aos ares, como quem diz “estou ligando à polícia!!", quando, na verdade, estava cancelando seus cartões de crédito.
Um mês depois, encontraram sua carteira intacta. Documentos, cartões, folha de louro e santinha. Os bens de Fernando nunca foram encontrados. Talvez o vermelho traga sorte mesmo.
Tudo dessa história é verdade, sob a margem da licença poética, claro. Essa, de fato, foi a reação da minha mãe e, para não desmerecer por completo o meu pai, em meio à confusão ele conseguiu tirar uma folha de cheque da carteira 2 para pagar o hotel e taxi até o aeroporto e a delegacia.
Inclusive, chegando à polícia, minha mãe discutiu com o delegado que estava “acusando a vítima, onde já se viu?". Mas isso fica para uma próxima.

