Atividade 2
Escreva alguns parágrafos com uma das seguintes premissas: a) a personagem chega a um lugar desconhecido; b) a personagem encontra alguém que nunca viu antes
Chega a ser desumano me pedir qualquer coisa agora. Logo agora que tudo acabou. Nessa sala imaculada, nem parece que minutos atrás foi palco de um banho de sangue. Desde 97 fazendo cagada, já diria minha mãe. E que puta cagada essa daqui. Mas tudo bem, agora está tudo limpo, asséptico.
As paredes voltaram a ser brancas, a cama tem lençóis que parecem já terem sido alvejados infinitas vezes, as paredes… bom, essas estão encardidas. Porra, até o cheiro desse lugar é branco. Sinto vontade de vomitar, mas não quero esse quarto pintado de verde. “Quarto” talvez seja muito íntimo para um espaço que só tem uma cama-maca-colchão ou sei lá o nome disso. A coisa é barulhenta e desconfortável, feita para deixar as pessoas piores do que quando chegaram. É a lição: a vida é um desconforto variável mas sempre constante.Se bem que só falta esse fluido para completar a decoração. Suor, sangue, sal. Jorrei tudo que podia. Urrando como uma besta, sons que sequer posso chamar de gritos, já que aquilo não era humano. Sou bicho mesmo. Mas agora chegamos ao fim. Ao meu, talvez…O que? É, acho que esse não foi um bom começo de carta à minha recém nascida. Posso recomeçar?
Bebê, você nasceu dia 20 de maio, ao contrário do que sua certidão diz.
Você é uma taurina, ainda que do fim do ciclo. Jamais deixaria uma criança com os meus genes sendo geminiana. De loucura já basta a minha (espero que não seja nossa). O seu aniversário é no dia das abelhas! Sinto que isso é um presságio. Você terá muitas pessoas te acompanhando, vai pertencer a algum lugar, terá amigos, família grande que faz coisas como almoço de domingo, briga sobre onde quer passar as férias e uma mãe que sabe fazer bolo. Coisas que eu não consigo oferecer.
Não quero te contaminar com nada, por isso seu começo é limpo: sem nome, sem família, uma folha em branco para um futuro que, no mínimo, vai ser melhor que o meu. De mim, você leva a possibilidade única de um destino regido por Vênus e um signo de terra para manter seus pés no chão.
Pensei em acabar a carta ali, mas quero te contar algo que só eu sei. Como não temos câmera fotográfica e ninguém vai bater fotos de crianças abandonadas a não ser se forem da Guiné Bissau, quero te mostrar como você decidiu aparecer nesse mundo.
Camuflada no meu, seu, nosso sangue, você apareceu vermelha e careca. Percebi muitas veias roxas percorrendo seu fino corpo e cheguei a pensar ter parido um Sphynx, gato que a minha mãe tinha. O que tinha a seu favor eram os olhos verde-escuros com pequenas manchas castanhas. Espero que você ainda tenha eles. Não era um bebê de propaganda de fraldas, mas uma criança miúda, chorona e pouco simpática. Te desejo toda sorte do mundo, abelha.

